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Periquito Australiano: guia completo de criação e cuidados

27 de ago.
10 min de leitura

Ele aprende o seu assobio em três dias. Depois aprende o barulho do micro-ondas, o toque do celular e, se você repetir bastante, o próprio nome. E faz tudo isso numa ave de trinta gramas que cabe na palma da mão.

O periquito australiano é a segunda ave de estimação mais popular do mundo e, provavelmente, a mais subestimada. Muita gente compra achando que é um bichinho descartável de gaiola pequena — e é justamente por isso que a média de vida dele no Brasil é tão menor do que poderia ser.

Este guia traz tamanho, vida real, mutações, como sexar, gaiola, alimentação correta e a lista do que mata periquito dentro de casa.

O que é o periquito australiano

Bando de periquitos australianos de várias cores em um galho

O periquito australiano (Melopsittacus undulatus) é nativo das regiões secas do interior da Austrália — planícies abertas, matagais e bosques margeando cursos d'água. Na natureza é nômade: os bandos se deslocam seguindo água e alimento, e se reproduzem de forma oportunista, na estação chuvosa, ninhando em ocos de árvore.

Foi levado à Europa por John Gould por volta de 1838 a 1840, exposto no zoológico de Antuérpia em torno de 1850, e teve sua exportação proibida pela Austrália em 1894 — o que obrigou os europeus a criar a partir do plantel já existente. Chegou aos Estados Unidos no fim dos anos 1920 e se popularizou nos anos 1950.

Tamanho: comum e inglês não são a mesma ave

Este é o ponto mais confundido no Brasil, e a diferença é grande:

Periquito comum (tipo selvagem):

  • Comprimento: 18 a 20 cm

  • Peso: 30 a 40 g

Periquito inglês (de exposição, show budgie):

  • Comprimento: 22 a 24 cm, chegando a 25 cm nos de exposição

  • Peso: 50 a 55 g, passando de 55 g nos de exposição

  • Penas da cabeça infladas, que podem quase encobrir olhos e bico

O inglês parece cerca de duas vezes maior, embora a diferença de comprimento não seja tão grande — o volume vem da plumagem e da conformação.

Sobre o temperamento dos dois: as fontes veterinárias dizem que são bastante semelhantes, com o inglês possivelmente um pouco mais dócil. O mito de que o inglês "já vem manso" não se sustenta.

Sobre a vida do inglês, uma nota honesta: fontes veterinárias e criadores relatam vida mais curta no inglês, atribuída à consanguinidade das linhagens de exposição. Não existe estudo controlado publicado quantificando isso — desconfie de quem cita números exatos.

Expectativa de vida: o número que circula está errado

  • Faixa realista com bons cuidados: 7 a 15 anos

  • Média observada: em torno de 8 anos

  • Documentado na literatura veterinária: casos de 15 a 21 anos

  • Recorde mundial: 29 anos e 2 meses — Charlie, que viveu de 1948 a 1977 em Londres

O erro que se repete em sites brasileiros: "periquito vive de 5 a 8 anos", dito como se fosse teto biológico. Não é. É a média observada, achatada por dieta só de semente, gaiola pequena e ausência de veterinário. O potencial da espécie é bem maior — e a diferença entre 5 e 15 anos está quase toda no manejo.

Mutações de cor

Periquito australiano verde e periquito australiano azul juntos

Todos os periquitos de cativeiro se dividem em duas séries base:

  • Série verde (base amarela) — verde, verde-acinzentado, amarelo

  • Série azul (base branca) — azul, cinza, branco

O mecanismo: a cor vem de dois pigmentos, a eumelanina (preta) e a psitacofulvina (amarela). A luz azul refletida pela eumelanina atravessa a camada amarela e produz verde. Sem o pigmento amarelo, sobra o azul.

Existem pelo menos 32 mutações primárias descritas. As principais, agrupadas pelo modo de herança:

Ligadas ao sexo: opalino, canela (cinnamon), ino (que produz o lutino na série verde e o albino na série azul), lacewing e texas clearbody.

Dominantes: fator cinza, spangle (que inverte o desenho das penas da asa; em duplo fator produz ave clara amarela ou branca), arlequim dominante, violeta e fator escuro.

Recessivas: arlequim recessivo, clearwing, greywing, dilute, fallow e blackeyed self.

Poligênica: o topete (crested), que aparece em três formas — círculo completo, meio círculo e tufo.

Composta: o dark-eyed clear não é uma mutação única — é o resultado do cruzamento de arlequim continental com arlequim recessivo.

A regra de ouro dos genes ligados ao sexo

Esta é a informação que mais economiza tempo de quem cria: em periquito, só o macho pode esconder um gene ligado ao sexo.

A fêmea nunca é portadora invisível — ou ela é visual para aquela mutação, ou não tem o gene. Consequência prática: um macho canela sozinho só produz fêmeas canela. Para sair macho visual, o pai precisa ter o gene (visual ou portador) e a mãe precisa ser visual.

Como saber se é macho ou fêmea

Casal de periquitos australianos, azul e amarelo, no poleiro

A sexagem se faz pela cera — a parte carnuda logo acima do bico.

  • Macho adulto: cera azul brilhante, às vezes arroxeada, de textura lisa

  • Fêmea adulta: cera marrom, bege ou esbranquiçada. Em condição reprodutiva escurece e fica crostosa e rugosa

  • Jovens: cera ambígua, muitas vezes rosada ou pálida nos dois sexos

Quando fica confiável: a partir de 3 a 4 meses começa a dar para ler; certeza plena entre 4 e 6 meses, podendo ir até 8 meses em algumas aves.

As quatro mutações em que o método falha

Este é o ponto que quase nenhum site brasileiro traz, e é onde mais se erra:

Em albino, lutino, arlequim recessivo e dark-eyed clear, o macho tem cera cor de carne ou rosada — e permanece assim a vida toda. Como a fêmea jovem também tem cera clara, o método visual simplesmente não funciona nessas quatro variedades.

O que ainda dá para usar: a fêmea dessas mutações continua desenvolvendo cera marrom quando entra em condição reprodutiva. Mas isso só aparece em ave madura e em condição.

Para essas mutações, a solução é sexagem por DNA, que confirma o sexo com precisão de quase 100% mesmo em ave jovem.

Um alerta sobre prática de mercado: sexar filhote de 30 a 45 dias pela cera e vender como casal é erro. Nessa idade a cera é ambígua em todas as variedades.

Gaiola e poleiros

Dois periquitos australianos amarelo-esverdeados lado a lado

Tamanho mínimo, segundo o manual veterinário de referência: 51 × 51 × 76 cm. Isso é piso absoluto, não ideal — a orientação é comprar a maior gaiola que couber e couber no bolso.

Espaçamento entre grades: no máximo 1,27 cm. Gaiola de canário tem grade mais larga e a ave pode prender a cabeça.

Aqui vale um alerta direto: boa parte das gaiolas vendidas como "gaiola de periquito" em petshop brasileiro é menor que esse mínimo.

Material: aço inoxidável ou revestimento de boa qualidade. Cuidado com gaiola pintada, que pode conter chumbo, e com gaiola galvanizada, pelo risco de toxicose por zinco. Potes de inox ou cerâmica — o plástico fica poroso e acumula bactéria.

Poleiros — a regra que evita bumblefoot: o diâmetro deve ser tal que os dedos envolvam cerca de três quartos da superfície. E, mais importante que o número: use poleiros de diâmetros e texturas variados. Se todos forem iguais, a pressão cai sempre nos mesmos pontos do pé e aparecem úlceras de pressão, que evoluem para pododermatite.

  • Melhor material: galho de madeira natural de árvore não tóxica. Lave e aqueça em forno a 93 °C por 30 minutos antes de usar

  • Nunca use capa de lixa. Ela fere a sola do pé e não desgasta unha, ao contrário do que a embalagem promete

  • Cimento ou cerâmica: só um poleiro, junto com outros. Abrasivo demais se for o único

  • PVC: escorregadio e de diâmetro único

Fotoperíodo, um ponto quase sempre ignorado: dia longo demais estimula muda excessiva e atividade reprodutiva. Respeite o dia natural — cubra a gaiola quando o sol se põe.

Alimentação

Aqui existe uma divergência real entre escolas veterinárias, e prefiro apresentar as duas a fingir consenso:

  • Escola norte-americana: ração extrusada em 60% a 80% da dieta, vegetais e frutas em até 25%, sementes como parte muito pequena

  • Escola australiana: ração extrusada em 30% a 50%, alertando que passar de 50% de pellets pode trazer problemas para periquito; vegetais 20% a 35%, frutas 5% a 10%, sementes de qualidade 10% a 35%

No que as duas concordam integralmente: dieta só de semente é inadequada.

Uma faixa segura entre as duas escolas: 40% a 60% de ração extrusada, 25% a 35% de vegetais e verduras, 5% a 10% de frutas, e semente como complemento controlado — nunca como base.

Proteína: o nível de manutenção para periquito adulto é de 7% a 12%. Excesso de proteína pode causar doença renal e gota em aves predispostas.

Por que semente pura adoece a ave

Sementes são deficientes em vitamina A, cálcio e nos aminoácidos lisina e metionina, e ricas em gordura. E o periquito escolhe seletivamente apenas um ou dois tipos favoritos, geralmente painço — o que piora tudo.

O quadro clássico é o bócio por deficiência de iodo, documentado justamente em periquitos alimentados só com semente. O sinal que o dono percebe é chiado, estalo ou respiração ruidosa, causado pela pressão da tireoide aumentada sobre a siringe.

Duas correções de senso comum: girassol é pobre em cálcio e rico em gordura; e açafrão tem mais gordura que girassol, ao contrário do que muita gente acredita.

Grit e areia: não use

Esta é provavelmente a orientação mais importante desta seção, e contraria o que se vende em petshop no Brasil inteiro.

O periquito não precisa de grit nem de areia. Ele descasca a semente antes de engolir, então não há casca para moer na moela. Só aves que engolem semente inteira, como pombos e rolinhas, precisam de grit.

E o risco é concreto: alguns periquitos consomem grit em excesso quando ofertado, o que causa obstrução do trato digestivo — e pode ser fatal. O manual veterinário de referência lista isso entre os mitos de nutrição de psitacídeos já desmentidos.

Alimentos proibidos

  • Abacate — contém persina, toxina cardíaca. Angústia respiratória tipicamente em torno de 12 horas após a ingestão, morte possível em 1 a 2 dias. Aves pequenas são mais suscetíveis. Não há antídoto

  • Chocolate e cafeína — teobromina e metilxantinas: hiperatividade, taquicardia, tremores, convulsões

  • Cebola, alho, alho-poró e cebolinha — danificam as hemácias e causam anemia grave. Formas concentradas, como pó e tempero pronto, são ainda mais perigosas

  • Álcool e excesso de sal

  • Caroços de frutas e sementes de maçã — contêm cianeto

  • Xilitol e laticínios

Riscos dentro de casa

Os mesmos que valem para qualquer psitacídeo, e a lista é maior do que a maioria imagina.

PTFE, o revestimento antiaderente. Quando aquecido libera partículas e gases tóxicos, e em aves a morte súbita pode ser o único sinal. Além da frigideira, contêm PTFE bandejas de fogão, sanduicheiras, ferros de passar, capas de tábua de passar e lâmpadas de aquecimento — atenção especial para quem usa campânula em criatório.

Perigos físicos: vidros e espelhos, janelas e portas abertas, ventilador de teto em rotação, chama de fogão, afogamento em água parada, fios elétricos e armadilhas adesivas.

Fumaças químicas: perfume, água sanitária, amônia, limpa-forno, removedor de esmalte e tintura de cabelo.

A regra prática: feche tudo antes de abrir a gaiola, e não deixe a ave solta sem supervisão.

Reprodução

  • Ninhada: 4 a 6 ovos em média, podendo variar de 3 a 10

  • Incubação: 18 dias. A fêmea costuma começar a incubar depois do segundo ou terceiro ovo

  • Emplumamento: cerca de 30 dias. Desmame completo entre 6 e 8 semanas

  • Maturidade fisiológica: a partir de 6 meses

E aqui vai a distinção que os sites brasileiros erram: maturidade fisiológica não é idade segura para reproduzir. A entidade britânica de criadores estabelece mínimo de 12 meses para a fêmea e 10 meses para o macho. A ave pode botar aos 6 meses — mas não deve.

Quantas ninhadas por ano: a recomendação da entidade britânica é no máximo três rodadas, com descanso de 2 a 3 semanas entre elas. Muitos veterinários de aves são mais conservadores e ficam em duas. Trate três como teto, não como meta.

O termo técnico que explica o risco: o periquito é poedeira indeterminada — se você retira ovos, ela repõe. É essa característica que leva à postura crônica, condição patológica que aparece quando se deixa o ninho na gaiola o ano todo.

Para prevenir: controlar o fotoperíodo, remover a caixa-ninho fora da temporada, garantir cálcio adequado e respeitar o descanso entre rodadas.

Temperamento e fala

Periquitos australianos interagindo no poleiro

O periquito é descrito pelas fontes veterinárias como social, gentil e afetuoso, curioso e ativo. Aves jovens são mais fáceis de amansar. É bom com crianças desde que as crianças sejam respeitosas — uma ave de 30 g é facilmente vítima de criança agitada.

Sobre a fala: o periquito aprende mais palavras que qualquer outro psitacídeo — o recorde mundial é de 1.728 palavras, de um macho chamado Puck. Machos falam significativamente melhor que fêmeas.

A ressalva honesta: a voz dele é rouca, aguda e acelerada, e soa como uma gravação em velocidade rápida. Muito dono nem percebe que a ave está falando. Se você compara com a calopsita, o periquito ganha em vocabulário e perde em clareza — a calopsita é superior em assobio e melodia.

Sozinho ou em casal? As duas opções funcionam, e a escolha depende de você:

  • Ave sozinha com muito convívio diário fica mais apegada a pessoas e fala melhor

  • Casal ou grupo fica socialmente satisfeito e menos dependente de você

O que não funciona é ave sozinha e negligenciada. Se você não tem tempo de conviver todo dia, tenha mais de uma.

Perguntas frequentes sobre o periquito australiano

Quantos anos vive um periquito australiano?

De 7 a 15 anos com bons cuidados, com média em torno de 8. Casos de 15 a 21 anos estão documentados na literatura veterinária, e o recorde mundial é de 29 anos e 2 meses. O número de 5 a 8 anos que circula na internet é a média achatada por manejo ruim, não o teto da espécie.

Qual a diferença entre periquito australiano e periquito inglês?

O comum mede de 18 a 20 cm e pesa de 30 a 40 g. O inglês, de exposição, mede de 22 a 24 cm e pesa de 50 a 55 g, com penas da cabeça infladas que o fazem parecer quase o dobro do tamanho. O temperamento dos dois é semelhante.

Como saber se o periquito é macho ou fêmea?

Pela cera, a parte carnuda acima do bico: o macho adulto tem cera azul brilhante e a fêmea marrom, bege ou esbranquiçada, ficando crostosa na reprodução. Fica confiável a partir de 3 a 4 meses. O método falha em albino, lutino, arlequim recessivo e dark-eyed clear, em que o macho mantém cera rosada a vida toda — nesses casos só a sexagem por DNA resolve.

Periquito precisa de areia ou grit na gaiola?

Não, e pode ser fatal. O periquito descasca a semente antes de engolir, então não precisa de grit para moer alimento. Alguns consomem grit em excesso quando ofertado, o que causa obstrução do trato digestivo. É um dos erros mais difundidos no Brasil.

Pode alimentar periquito só com sementes?

Não. Sementes são pobres em vitamina A, cálcio e nos aminoácidos lisina e metionina, e ricas em gordura. A dieta só de semente causa desnutrição, obesidade e bócio por falta de iodo, cujo sinal clássico é chiado ou estalo ao respirar.

O periquito fala melhor que a calopsita?

Aprende mais palavras — o recorde mundial de um periquito é de 1.728 palavras, e nenhuma calopsita tem marca comparável. Mas a dicção do periquito é rouca e acelerada, muitas vezes difícil de entender, enquanto a calopsita é superior em assobio e melodia. Nas duas espécies o macho fala bem melhor que a fêmea.

Onde comprar periquito australiano

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