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Pato Gigante Alemão: guia da linhagem, peso, postura e manejo

28 de ago.
10 min de leitura

Imagine o meio da manhã no seu terreno. Um vulto grande atravessa o gramado sem fazer barulho nenhum — nem um "quá", nem um grasnado, nada. Só o farfalhar das penas. É um macho de Pato Gigante Alemão, malhado de branco e preto, carúncula vermelha viva na face, do tamanho de um peru pequeno. Ele para, levanta a crista, sacode a cauda e segue caminhando. Uma hora depois você o encontra empoleirado no mourão da cerca, porque ele tem garras e sobe.

Se você tem vizinho perto e quer uma ave grande sem barulho, este é o pato. E ele não é o que a maioria das pessoas pensa que é.

Primeiro: o que é o Pato Gigante Alemão

O nome confunde muita gente, então vamos direto ao ponto: o Pato Gigante Alemão é uma linhagem brasileira de pato-mudo (Cairina moschata). O "alemão" se refere aos imigrantes alemães do Sul do Brasil que teriam formado a linhagem — não a uma raça da Alemanha.

Não existe raça alemã com esse nome. No padrão alemão, o pato-mudo se chama Warzenente, e o "pato alemão" que muita gente lembra do Vale do Itajaí é outra coisa: é o Marreco de Pequim (Anas platyrhynchos), aquele das festas germânicas de Santa Catarina, do marreco recheado. São duas espécies de gêneros diferentes com nomes comerciais parecidos.

A literatura acadêmica brasileira registra quatro linhagens principais de pato no país: paissandu, gigante alemão, moscovy e crioulo. A descrição do gigante alemão bate com o que se vende: coloração branca misturada com preto, carúnculas bem avermelhadas e desenvolvidas, porte médio a grande, e machos que atingem o dobro do peso das fêmeas na fase adulta.

Carúncula e macho com o dobro do peso da fêmea só existem em Cairina. Nenhuma raça de Anas tem isso.

Pato não é marreco

Pato-mudo nadando, com a pele vermelha da face bem visível

Esta é a confusão mais comum da avicultura brasileira, e vale corrigir de uma vez:

  • Pato = Cairina moschata. Pato-mudo, pato-crioulo, pato-de-Barbária. Tem carúncula, tem garras, quase não vocaliza, e o macho pesa cerca de duas vezes a fêmea. Incubação: 35 dias.

  • Marreco = Anas platyrhynchos. Pequim, Rouen, Corredor Indiano, Campbell. Sem carúncula, grasna alto, e o macho pesa apenas 3 a 4% a mais que a fêmea. Incubação: 28 dias.

Guarde a diferença de incubação: quem coloca ovo de pato numa chocadeira programada para 28 dias joga a incubação inteira fora.

A espécie é americana, não europeia nem asiática: o pato-mudo é neotropical, do México à Argentina, domesticado por povos ameríndios antes da chegada dos europeus.

Peso e o dimorfismo sexual

Pato-mudo adulto de corpo inteiro em pé junto à água

O dimorfismo é a característica mais visível da espécie, e ela é extrema:

  • Padrão britânico: macho 4,5 a 6,3 kg | fêmea 2,3 a 3,2 kg

  • Padrão alemão: macho 5 kg | fêmea 3 kg

  • Linhagens comerciais pesadas europeias: macho 5,0 a 5,2 kg aos 84 dias | fêmea 2,55 a 2,85 kg aos 70 dias

  • Abate comercial: fêmeas às 10 semanas com 2,5 a 3,5 kg; machos às 12 semanas com 4,5 a 5,5 kg

  • Adulto máximo excepcional: até 7 kg no macho e 5 kg na fêmea

  • Aos 4 meses: fêmeas cerca de 2 kg, machos 3 a 4 kg

  • Patos de fundo de quintal não selecionados: machos cerca de 2,8 kg, fêmeas cerca de 1,8 kg

Sobre os "8 kg no macho e 4,4 kg na fêmea" que circulam nos anúncios brasileiros: 8 kg não tem respaldo em nenhum padrão do mundo nem em nenhuma genética comercial. O máximo documentado, e como caso excepcional de adulto velho, é 7 kg. Se a sua ave chegar aos 6 kg, você tem um animal excelente.

E a "altura de 61 cm" que aparece nas mesmas fichas: altura não é medida padronizada em avicultura. O número coincide suspeitosamente com o comprimento de corpo medido em patos de quintal. O comprimento total da espécie é de 66 a 84 cm, com envergadura em torno de 145 cm.

A carúncula

Cabeça de pato-mudo em detalhe: a carúncula vermelha desenvolvida ao redor do bico e do olho

Ambos os sexos têm a pele nua e vermelha na face, do bico até acima e atrás do olho. As carúnculas — as verrugas vermelhas — desenvolvem-se com a idade, muito mais no macho, e ficam ainda mais proeminentes na estação reprodutiva. O padrão americano histórico as descreve como "semelhantes às da cabeça e do pescoço de um peru", e considera defeito grave a carúncula lisa e pequena. Ela não pode obstruir olhos nem narinas.

A ave tem também uma crista erétil na fronte, que ela levanta em displays de agressão e de corte.

A partir de que idade exatamente a carúncula distingue os sexos? Na prática, aos 3 meses a diferença já é evidente.

Postura e incubação

Ovos férteis acomodados em ninho de palha
  • Ninhada: 8 a 21 ovos, com 2 a 3 chocos por ano

  • Criação rústica com choco natural: 45 a 90 ovos por ano

  • Matriz comercial, com luz controlada e retirada de ovos: 200 a 220 ovos em dois ciclos

  • Peso do ovo: cerca de 78 a 79 g, com mínimo de padrão em 70 g

  • Cor da casca: branca, às vezes com leve tom amarelado

  • Início de postura: por volta das 24 semanas (6 meses)

  • Incubação: 35 dias — confirmado por múltiplas fontes independentes

  • Proporção reprodutiva: 3 a 5 fêmeas por macho

Os "150 ovos por ano" dos anúncios não são errados — são um ponto arbitrário no meio de uma faixa muito larga, apresentado como se fosse constante da raça.

A melhor chocadeira viva que existe

A fêmea de pato-mudo é a chocadeira natural mais valorizada da avicultura. Ela foi usada historicamente para incubar ovos de outras espécies, e defende os filhotes com uma determinação que impressiona.

Um detalhe de manejo tirado direto da etologia da espécie: ela prefere ninhos elevados, abrigados e com pouca luz — reproduzindo o oco de árvore natural. Se você fizer o ninho assim em vez de uma caixa rasa no chão, a aceitação e a taxa de choco melhoram.

E uma curiosidade útil de um estudo recente: a presença do macho antecipou a primeira postura em 16 dias sem alterar o peso do ovo.

O mulard: o cruzamento que estraga plantel sem ninguém perceber

Este é o alerta mais importante do guia para quem tem pato e marreco no mesmo terreno.

O mulard é o híbrido entre macho de pato-mudo e fêmea de marreco (geralmente Pequim). Ele é estéril.

No quintal brasileiro isso acontece o tempo todo: o pato macho cobre a marreca, os ovos nascem, os filhotes crescem rápido e ficam grandes — e o criador acha que "melhorou a linhagem". Não melhorou. Ele produziu mulards, que não deixam descendência. Se guardar esses animais como matrizes, perde a temporada inteira.

Por que é estéril: não é "número de cromossomos diferente" — as duas espécies têm 2n = 80. É falha meiótica. As duas espécies estão geneticamente distantes demais e a divisão celular que produz espermatozoides e óvulos trava. Em machos mulard de um ano encontram-se espermatogônias, mas nenhum espermatozoide.

Vale saber que o mulard é um produto comercial legítimo e enorme: 35 milhões de mulards foram criados na França em 2007, produzidos por inseminação artificial. Na França, as fêmeas viram magret e os machos, foie gras. Incubação do mulard: 32 a 33 dias — mais um número entre os 28 do marreco e os 35 do pato.

Ração e niacina

  • Peletizada é muito superior à farelada — o farelo gruda no bico com a saliva e se perde

  • Diâmetro do pélete: 3,2 mm nas duas primeiras semanas, 4,8 mm depois

  • Durabilidade do pélete: cerca de 96% para patos e marrecos (contra 80% para galinhas)

  • Patos não têm papo (inglúvio) e o bico chato desperdiça ração em comedouro de galinha — use comedouro adaptado

  • Densidade recomendada: 4 aves/m² de 0 a 10 semanas; acima de 8 aves/m² aumenta a bicagem de penas

  • Matrizes comerciais recebem restrição alimentar a partir das 7 semanas para não engordar e perder fertilidade

Sobre consumo diário, sejamos francos: não existe número publicado para o pato-mudo adulto em manutenção. Derivando dos dados comerciais, um macho de linhagem pesada consome em média cerca de 155 g/dia ao longo do ciclo de engorda e bem mais que isso no fim — provavelmente 200 a 250 g/dia. Trate como derivação, não como medida.

E a niacina, de novo, porque é o que mais mata patinho no Brasil: patos convertem triptofano em niacina com muito menos eficiência que galinhas. O alvo é de 55 a 80 mg por quilo de ração. Ração de pinto de corte comum traz cerca de 35 mg/kg, calculados para galinha — insuficiente. O resultado da falta é perna arqueada e jarrete inchado. E nunca use ração medicada com anticoccidianos não liberados para patos.

Água: menos dependente, mas não dispensa

Aqui preciso ser honesto com você, porque circula meia-verdade.

O que é verdade: o pato-mudo é a mais terrestre das aves aquáticas domésticas. A glândula uropigiana é menos desenvolvida e ele nada pouco. Patos-mudos ferais passam apenas 18 a 33% do dia na água ou na margem, contra 31 a 49% em gramado aberto. E o mais prático: ele acasala com sucesso em terra seca, ao contrário das raças pesadas de marreco, que copulam melhor na água. Por isso ele dispensa açude para reproduzir.

O que não é verdade: que ele "quase não precisa de água". Ele continua sendo ave aquática, e o repertório dela inclui beber, peneirar, mergulhar a cabeça, banhar-se, nadar e higienizar as penas molhadas. O mínimo é um bebedouro fundo o bastante para mergulhar a cabeça e limpar as narinas.

E há um dado direto para o calor brasileiro: patos-mudos com duas horas de acesso a água de banho no meio do dia tiveram melhor desempenho de crescimento, melhor relação heterófilos/linfócitos, menor temperatura corporal e menor mortalidade. Duas horas de banho no horário quente não é mimo — é produtividade.

Não existe nenhum estudo que meça quanto menos água o pato bebe em relação ao marreco. Quem der um número aí está inventando.

Voo, garras e poleiro

Pato-mudo jovem em pé sobre um tronco
  • A fêmea voa bem — ela é leve, de 2 a 3 kg, e mantém a capacidade de voo. O macho pesado de linhagem comercial praticamente não voa.

  • Cortar só uma asa pode não bastar nesta espécie. Para confinamento, recomenda-se cortar as duas, ou telar o recinto por cima.

  • As garras são afiadas de verdade. Servem para empoleirar em galho, danificam tela plástica e machucam quem segura a ave sem luva. Os machos brigam usando garras, asas e bico.

  • Poleiro não é luxo. É recomendação formal de bem-estar: estruturas elevadas de fácil acesso, baixas o suficiente para a ave não machucar as pernas na descida, de preferência com rampa. Na natureza, o pato-mudo dorme e se empoleira em árvores.

Temperamento, ruído e rusticidade

Ruído: praticamente nenhum. O nome "mudo" é literal — em alemão a ave se chama Stummente, pato mudo. Ela não faz "quá-quá": o macho emite um sopro grave e rouco, mais parecido com um ofego que com um chiado, e a fêmea um trinado baixo. É a ave doméstica de quintal menos ruidosa que existe. Uma marreca de Pequim grasna alto o dia inteiro; uma pata praticamente não faz som audível de longe. Para quem tem vizinho próximo, esse é o argumento decisivo.

Temperamento: as fontes divergem, e a síntese honesta é esta — espécie tímida e calma em manejo normal, com o macho territorial e brigador na estação reprodutiva, especialmente contra outros machos e intrusos, e a fêmea muito defensiva dos filhotes. Ambos se debatem com força quando capturados. A reputação de agressivo é em boa parte injusta e vem justamente do fato de que, encurralada, a ave reage.

Rusticidade: é ave tropical de origem, mas a robustez permitiu adaptação a climas muito diferentes — prospera até em torno de −12 °C. Tem forte resistência a doenças em comparação com outras raças de pato, é onívora (come plantas, minhocas, insetos, peixes, anfíbios) e excelente forrageadora de quintal.

Expectativa de vida

7 a 9 anos, com relatos de aves mais longevas em criações de estimação. A vida produtiva útil é bem menor — de 3 a 4 estações; matrizes comerciais são descartadas por volta das 55 semanas, ou 82 semanas quando se faz dois ciclos com muda no meio.

Sexagem

  • Dia 1 — cloaca, ou pela cor da penugem quando a linhagem é autossexante (veja o guia da variedade Chocolate)

  • A partir dos 3 meses — tamanho. O macho já pesa 1 a 1,5 kg mais que a fêmea aos 90 dias na linhagem crioula. É inequívoco.

  • Carúncula — muito maior e mais protuberante no macho. Na forma selvagem, a fêmea tem parte da face emplumada e não tem o calombo proeminente.

  • Voz — macho com sopro rouco grave, fêmea com trinado baixo

Quem promete sexar "de olho" com uma semana está chutando.

Perguntas frequentes sobre o Pato Gigante Alemão

O Pato Gigante Alemão é uma raça alemã?

Não. É uma linhagem brasileira de pato-mudo (Cairina moschata), formada no Sul do Brasil, e o "alemão" se refere aos imigrantes que a desenvolveram. Não existe raça com esse nome no padrão alemão — lá o pato-mudo se chama Warzenente.

Quanto pesa um Pato Gigante Alemão?

Macho de 4,5 a 6,3 kg e fêmea de 2,3 a 3,2 kg pelos padrões internacionais; linhagens comerciais pesadas chegam a 5,0 a 5,2 kg no macho. O máximo excepcional documentado é 7 kg. Os "8 kg" dos anúncios não têm respaldo em nenhum padrão do mundo.

Quantos dias o ovo de pato choca?

35 dias, contra 28 dias do marreco e 32 a 33 do mulard. Quem programa a chocadeira para 28 dias com ovo de pato perde a incubação inteira.

Qual a diferença entre pato e marreco?

São espécies de gêneros diferentes. O pato (Cairina moschata) tem carúncula, garras, quase não vocaliza, e o macho pesa o dobro da fêmea; incuba em 35 dias. O marreco (Anas platyrhynchos) grasna alto, não tem carúncula, e o macho pesa só 3 a 4% a mais que a fêmea; incuba em 28 dias.

Cruzei meu pato com minha marreca e nasceram filhotes ótimos. Posso usá-los como matriz?

Não. Você produziu mulards, híbridos estéreis. Eles crescem rápido e ficam grandes, mas não deixam descendência. Se guardar esses animais como reprodutores, perde a temporada.

O Pato Gigante Alemão precisa de lago?

Não precisa de lago nem para viver nem para acasalar — ele copula em terra seca, diferente das raças pesadas de marreco. Mas continua sendo ave aquática: precisa de bebedouro fundo o bastante para mergulhar a cabeça, e no calor brasileiro duas horas de banho no meio do dia melhoram o ganho de peso e reduzem a mortalidade.

Ele faz barulho?

Praticamente não. É por isso que se chama pato-mudo. O macho dá um sopro grave e a fêmea um trinado baixo — nada de "quá-quá". É a ave de quintal menos ruidosa que existe, e o argumento mais forte para quem tem vizinho perto.

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